I Encontro Bienal de Psicanálise e Cultura da
Sociedade Brasileira de Psicanálise de Ribeirão Preto

5 a 8 de junho de 2008

ALMA, ESTÁS AÍ? (*)
ONIPOTÊNCIA E DESAMPARO DO HOMEM EM TRAVESSIA

(*) Julia Kristeva

A relação Psicanálise Cultura assim representada põe em destaque o intercâmbio de influências recíprocas e contínuas que se dá entre cultura e psicanálise.

Freud (1930) se referiu à cultura como a totalidade das realizações e regulamentos que servem, basicamente, a dois objetivos: proteger os homens contra a natureza (através das descobertas, do conhecimento científico e dos avanços tecnológicos) e modular os seus relacionamentos entre si. Isto equivale a dizer que o homem está moldado por sua cultura e não pode ser entendido sem levarmos em conta o contexto histórico e sócio-cultural em que está inserido.

A Psicanálise sempre esteve em contato com os desenvolvimentos do pensamento humano, utilizando modelos advindos da biologia, da neurofisiologia, da física quântica, da filosofia, da literatura, da mitologia, entre tantos. Por outro lado, é inegável a influência que a psicanálise exerceu na cultura do século XX, bastando lembrar a importância do papel constitutivo das noções psicanalíticas em áreas como as da educação e da saúde mental. Historicamente, a Psicanálise pertence à tradição científica da liberação do pensamento em relação aos dogmas e às verdades absolutas. Em sua função crítica e reflexiva, ela questiona a cultura e termina por alterar os paradigmas vigentes; a cultura, por sua vez incorpora as contribuições trazidas pela psicanálise e as modifica novamente, e o interjogo cultura psicanálise não cessa!

O instigante título inspirado em Júlia Kristeva, Alma Estás Aí?, chama nossa atenção para a questão da interioridade, da intimidade, da identidade e do espaço lúdico para o sonhar, o fantasiar, o reinventar-se diante dos desejos e frustrações... em contraponto ao individualismo narcisista, a tendência à massificação e à negação das diferenças.

Machado de Assis, no conto “O Espelho”, aborda essa questão ao dizer que cada criatura humana traz consigo duas almas: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro. Ele diz que a alma exterior, pode ser um homem, vários homens, um objeto, e que o ofício dessa alma é transmitir a vida como a primeira. As duas completam o homem, e quem perde uma delas perde metade da existência.

Onipotência e Desamparo do Homem em Travessia
O homem contemporâneo, imerso numa cultura que instaurou a relativização das verdades e gerou avanços tecnológicos incríveis, passou a viver num mundo extremamente competitivo e onde tudo é descartável; um mundo em que predominam as realidades virtuais, em que incontáveis informações chegam quase que em tempo real. Assim, não há espaço para a relação inter-pessoal, para o pensar reflexivo acerca de si mesmo e, portanto, para a elaboração das experiências emocionais.
O resultado de um processo cultural como esse é a solidão e frequentemente o desamparo...  terreno fértil para o surgimento da onipotência como forma de sub-viver.

Por isto, este homem da pós-modernidade, cada vez mais envolvido com a imagem externa, com o concreto, com o TER em lugar do SER não quer limites, não tolera aguardar, não quer ter frustrações e muito menos dor!

Voltando a Machado de Assis: corremos o risco de perder a alma de dentro? O I Encontro Bienal Psicanálise e Cultura da SBPRP, ao promover o diálogo da psicanálise com várias outras áreas do saber humano – literatura, filosofia, música, artes plásticas, arquitetura, gastronomia - constitui-se um fórum privilegiado para sairmos da perplexidade frente a este mundo complexo e continuarmos pensando novas formas, novas abordagens, novos modelos que favoreçam a construção da subjetividade!

Pedro Paulo de Azevedo Ortolan
Presidente da SBPRP


A pergunta “Alma, estás aí?”(*) evoca a dúvida sobre o destino da interioridade do Homem na travessia desse início de século. Um Homem com poderes ampliados por novas tecnologias que aceleram o tempo, eliminam distâncias, facilitam comunicações e lhe conferem possibilidades ilimitadas de criações. Esse Homem poderoso está também diante da escassez de tempo e espaço para reflexão, interiorização, intimidade consigo e com o outro – esses, elementos de poiesis, construtores da alma. Assim, sentimentos de onipotência oscilam com sentimentos de solidão, medo e desamparo.
No I Encontro Bienal de Psicanálise e Cultura da SBPRP, estarão reunidos profissionais pensadores da experiência humana – o psicanalista, o artista plástico, o músico, o literato, o cineasta, o arquiteto, o professor, o restaurateur, o filósofo, o sociólogo, o poeta – para exporem suas reflexões sobre esse momento da humanidade. Ouvi-los, pensar e conversar com eles será certamente um privilégio, além de uma oportunidade para “alimentar” a alma.
Falando em “alimento para a alma”, Adélia Prado, poeta que fará a conferência de abertura do evento, nos diz em seu Ensinamento:

Minha mãe achava estudo
A coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
Ela falou comigo:
“Coitado, até essa hora no serviço pesado.”
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente.
Não falou em amor.
Essa palavra de luxo.

Objetivos
O I Encontro Bienal de Psicanálise e Cultura da SBPRP tem por objetivo geral apresentar a Psicanálise em diálogo com diversos segmentos da cultura – artes plásticas, literatura, música, cinema, educação, filosofia, urbanismo – considerando-se que a Psicanálise, como área de conhecimento sobre o ser humano, encontra-se em permanente comunicação com a cultura, gerando influências recíprocas. 
Como objetivo mais específico, pretende-se oferecer a profissionais e estudantes da área de ciências humanas e de saúde a oportunidade de ampliar e aprofundar reflexões sobre características da vivência humana nesse início de século, contemplando as principais angústias geradas nesse momento histórico – cultural. Espera-se ainda que o Encontro contribua para atrair à Ribeirão Preto profissionais e estudantes de várias regiões do país, uma vez que se trata de um evento de interesse nacional.

Tema
O I Encontro Bienal de Psicanálise e Cultura da SBPRP abordará questões e reflexões sobre o sentimento de desamparo presente no homem da pós – modernidade. Esse homem que se encontra às voltas com transformações profundas em seus meios de produção, comunicação e construção de conhecimentos, com repercussões proporcionalmente intensas em sua subjetividade e em seu com-viver. Esse homem que oscila entre o sentimento de desamparo e a ilusão da onipotência nas incertezas e inseguranças inerentes à travessia.

Formato
O Encontro iniciará com uma conferência de abertura da escritora Adélia Prado no dia 5/6, quinta-feira à noite e prosseguirá nos dias seguintes, sexta, sábado e domingo, com a realização de dez mesas redondas. As mesas serão compostas por profissionais de diferentes segmentos da cultura e por psicanalistas.  O encerramento será no dia 8 com uma conferência do psicanalista Leopold Nosek e a presença de Cláudio Laks Eizirik presidente da IPA (International Psychoanalysis Association).
Serão programadas também apresentações culturais durante o Encontro – música, dança, teatro.

Exposição de arte
Paralelamente às discussões e como parte integrante do evento, haverá uma exposição de arte sobre o tema do Encontro (desamparo e onipotência do homem em travessia) que reunirá obras de artistas contemporâneos nacionais, com curadoria de Leopold Nosek, psicanalista e curador de arte.

Maria Bernadete Amêndola Contart de Assis
Diretora Científica da SBPRP

 


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